A Janela

Conhecida, pelos seu prédios trabalhados por mosaicos de pinturas, as suas janelas não passam discretas a todos os que nos visitam. As janelas que vemos hoje estão mais abertas do que nos passeios que fiz inúmeras vezes pela cidade. Neste momento, ao olhar para a janela da luz no final do túnel, percebo o quanto é importante o contacto entre vizinhos, entre jogos de família, entre os momentos de quem viaja dentro até ir à janela para olhar para fora.

Eram onze da manhã de um dia de sol quente e primaveril. A janela, aberta como sempre, deixava passar os raios de sol, aquela luz, tão típica de Lisboa, por entre as cortinas de cada casa. Em Lisboa, a natureza sempre esteve presente em cada colina, esquina, ou até praça que se avizinha. Nessa manhã, com o assobio de um pequeno passarinho, que me acordou por entre sonhos esquecidos, notei que a natureza manifestou-se, neste silêncio que agora vivemos na nossa cidade. Os passarinhos sempre existiram, o sol sempre brilhou, os vizinhos também, mas o que é que mudou? Como alguém já disse, nesta estranha forma de agora viver, a nossa janela, aquele binóculo para o mundo real, nunca foi tão importante.

As janelas de Lisboa, dão aquele ar pitoresco, humano e colorido à cidade. Seja pela roupa incrivelmente bem estendida, seja pelos gatos que se assumem como donos da sua janela, seja pela tradição de bordados por dezenas de mãos que mostram o orgulho em mostrar uma janela Lisboeta.  A minha janela, mudou. Tornou-se essencial para o dia a dia e faz-me sentir humildemente saudosa dos tempos em que nem olhava para ela.

Neste contacto, com esta nova janela, vou deixando um pouco de pão à natureza que nestas ruas de Lisboa parece cantar mais alto. Talvez por não haver quase carros nas ruas, a natureza gritou à nossa janela, talvez para nos recordarmos de sons, animais, que há tanto tempo não ouvíamos.

Valorizo cada momento que aqui passo. Não sinto que vou fotografar as pessoas que passam à minha janela.

Ainda naquela manhã, acordada pelo cantar do passarinho e pelo galo que despertava, ouvi ainda algo que já não ouvia à tanto tempo. Crianças nos pátios que se reúnem para correr, saltar e brincar. Em Alfama, muitas vezes ouvi estes sons da brincadeira. Acordei de uma vez por todas e olhei o que se passava. Afinal, até eu gostaria de ali estar, simplesmente a brincar.

Lisboa continua com o seu brilho intemporal. O seu silêncio nas ruas que nos conduz para o interior faz-nos querer logo, logo voltar à nossa cidade.

Acredito que a cor que a cidade ganhará, fará com que valorizemos cada janelinha do seu puzzle de azulejos. Pergunto-me vezes sem conta, dou voltas ao calendário, risco cada dia e esta enorme vontade de te sentir Lisboa não me deixa outra forma senão a da imaginação.

Mais pessoas à janela, mais música partilhada pelas ruas, mais cortinados coloridos que deixem que olhemos para dentro de cada casa, mais famílias a jogarem às cartas nos seus pátios tão agora desejados e mais aquela imagem que vejo de mãe e filho a trocarem a bola numa prática disciplinada para passar o tempo.

O tempo… Aquele que nunca era suficiente para olhar Lisboa. Aquele que nos fazia suspirar pelo sabor quente do fim de semana. Aquele que chegou agora.

A janela são os olhos para uma Lisboa que está em mudança profunda. O tempo é a ampulheta que nos cria novas rotinas e olhares para um desconhecido que atravessamos juntos. A lua, aquela que aparece por cima do tetris de janelas de lusco fusco e que nos mostra uma serenidade que nos faz querer ali, no lugar do vai correr tudo bem e com Lisboa também.

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